A transfiguração do varejo farmacêutico pela IA

Matheus Raimundo, head de Inteligência de Mercado do Grupo AMR Saúde

Executivo do Grupo AMR Saúde traz reflexões sobre precificação, cadeia de abastecimento e comportamento do cliente

Imagine uma farmácia onde os preços se ajustam em tempo real para maximizar lucros, os estoques estão sempre equilibrados, os clientes recebem ofertas que parecem feitas sob medida e a operação flui com eficiência nunca vista. Esse cenário não é um sonho futurista, é a transformação que a inteligência artificial (IA) está trazendo ao varejo farmacêutico brasileiro. Espaço publicitário

Segundo Sergio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), os investimentos em inovação podem alcançar R$ 1 bilhão nos próximos cinco a dez anos, deixando claro que a IA deixou de ser uma promessa para se tornar uma aliada estratégica dos donos de farmácias.

Ela revoluciona a precificação, fortalece a conformidade regulatória, otimiza a cadeia de abastecimento, personaliza a experiência do cliente e eleva a produtividade — tudo isso com soluções que podem caber no orçamento de pequenos negócios. Vamos mergulhar nesse futuro, que já está transformando o presente, e descobrir como você, gestor, pode usar a IA para levar sua farmácia a um novo patamar.

Precificação e margem

Precificar no varejo farmacêutico é como caminhar em uma corda bamba: é preciso equilibrar margens de lucro, preços competitivos e a percepção de valor dos clientes. Nesse cenário desafiador, a IA entra em cena com a precificação dinâmica, uma abordagem que usa algoritmos para ajustar preços com base em variáveis como demanda, sazonalidade, estoque e comportamento da concorrência.

Pense em um cenário de alta procura por antigripais durante um surto de gripe: a IA analisa dados de vendas históricas e tendências regionais para sugerir preços que maximizem vendas sem comprometer a rentabilidade. Já para medicamentos próximos ao vencimento, ela propõe promoções automáticas que evitam perdas e aceleram o giro de estoque.

Ferramentas de gestão com IA, disponíveis em plataformas acessíveis, monitoram preços de concorrentes locais, ajustando automaticamente o valor de itens de alta rotatividade, como analgésicos, ou de produtos sazonais, como protetores solares. Isso garante margens mais robustas, reduz rupturas de estoque e mantém sua farmácia competitiva, mesmo em mercados saturados.

Um exemplo prático são algoritmos que cruzam dados de vendas passadas com sazonalidade e sugerem descontos estratégicos em suplementos vitamínicos durante o inverno, mantendo o fluxo de vendas sem sacrificar o lucro.

Cadeia de abastecimento e gestão de estoque

A precificação inteligente não brilha sozinha: ela está conectada à cadeia de abastecimento. A IA prevê demandas com precisão, analisando fatores como sazonalidade, promoções ou até surtos de doenças regionais, como a dengue em áreas específicas.

Com isso, é possível ajustar preços para promover produtos de alto giro ou escoar estoques parados, reduzindo perdas por vencimento. Por exemplo, se a IA identifica um lote de suplementos com validade próxima, pode sugerir uma campanha de descontos direcionada, garantindo vendas antes do descarte.

Além disso, a previsão de demanda orienta compras com fornecedores, evitando excessos ou faltas. Isso mantém as prateleiras cheias e os clientes satisfeitos, impactando diretamente a lucratividade.

Compliance e governança

A IA também é sobre proteger o seu negócio. A precificação dinâmica exige conformidade com regulamentações, como as da Anvisa e de órgãos de defesa do consumidor, que demandam transparência na formação de preços.

Ferramentas de inteligência artificial criam trilhas de auditoria automáticas, registrando cada decisão de preço para facilitar auditorias internas e externas. Isso reduz riscos de multas e reforça a confiança na gestão.

Para usá-la de forma responsável, é fundamental adotar práticas como obter o consentimento dos clientes para o uso de dados em promoções e revisar algoritmos regularmente, evitando preços que possam ser interpretados como abusivos. A transparência — como informar à lógica por trás de descontos — também fortalece a credibilidade junto aos consumidores.

Comportamento do cliente e experiência de compra

Na experiência do cliente, a IA eleva a precificação a outro nível com personalização. Ferramentas de segmentação analisam o comportamento de compra, a frequência, as categorias preferidas e o ticket médio para criar ofertas sob medida.

Um cliente fiel que adquire medicamentos de uso contínuo, como anti-hipertensivos, pode receber descontos personalizados via aplicativo ou mensagens automáticas, aumentando a fidelização.

Chatbots alimentados por IA confirmam pedidos, sugerem produtos complementares e reforçam a percepção de valor dos preços praticados. Essas interações criam uma experiência que faz o cliente se sentir único — um diferencial em um mercado competitivo.

Produtividade e custo (foco no gestor)

E o melhor de tudo? Você não precisa de um orçamento milionário para abraçar a IA. Ferramentas gratuitas, como o ChatGPT, podem gerar textos promocionais, criar imagens para redes sociais ou elaborar relatórios de vendas em minutos. Plataformas de baixo custo automatizam análises de concorrência ou ajustes de estoque, liberando tempo para decisões estratégicas.

Comece mapeando tarefas repetitivas, como precificação manual ou relatórios de vendas, para ingressar no mundo da inteligência artificial. Acompanhe indicadores-chave, como margem de lucro, giro de estoque, taxa de atendimento e satisfação do cliente, para medir o impacto.

Uma farmácia que implementa IA para monitorar preços pode aumentar a margem em 5% em poucos meses, enquanto outra que usa chatbots pode reduzir o tempo de atendimento em até 30%.

A inteligência artificial está redefinindo o varejo farmacêutico, e a precificação é apenas a ponta do iceberg. Ao alinhar tecnologia com uma gestão responsável e foco no cliente, você pode transformar sua farmácia em um negócio mais eficiente, lucrativo e competitivo.

O segredo é adotar uma postura experimental: comece pequeno, teste ferramentas acessíveis, meça resultados e adapte continuamente. A IA não é apenas uma tendência: é uma parceira estratégica ao seu alcance para construir uma farmácia preparada para o futuro.

Por Matheus Raimundo

Fonte:https://revistadafarmacia.com.br/gestao/a-transfiguracao-do-varejo-farmaceutico-pela-ia/

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